sexta-feira, 1 de julho de 2022

O Voo do Cagarro 28: Conferência das Nações Unidas para os Oceanos em Lisboa

 
Imagem da abertura da Conferência dos Oceanos em Lisboa.
Foto: F Cardigos


Enquanto começo a escrever estas linhas, um centro comercial na Ucrânia foi bombardeado por militares do Governo da Federação Russa. Mais uma atitude incompreensível dentro de uma guerra inadmissível. Mesmo sem saber qual é a solução para esta encruzilhada, na minha opinião, o único caminho viável será através do diálogo diplomático.
No meio desta falta de bom senso e em total contracorrente, Russos, Ucranianos e todas as nações do mundo estão juntos, reunidos em Lisboa, na Conferência das Nações Unidas para os Oceanos (UNOC). Acaba por constituir mais uma oportunidade para ajudar a resolver este problema tendo, no entanto, como missão central o consolidar de soluções impreteríveis para a salvaguarda de oceanos saudáveis.
Tal como a paz, qualquer um dos 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável das Nações Unidas (ODS) é imprescindível para o nosso sucesso enquanto espécie. Aquele que trouxe a Lisboa delegados do mundo inteiro é o ODS 14 dedicado aos Oceanos.
Foi extraordinário verificar como os responsáveis políticos não enjeitaram apontar problemas e assumir responsabilidades quanto à debilidade de implementação de soluções. Notou-se claramente que entendem a urgência e que assumem o compromisso de fazer mais e melhor. As futuras gerações agradecem, mas, atenção, querem ação e exigem resultados!
É preciso ter em enorme sentido que todos nós dependemos dos oceanos. Ao contrário, os oceanos não dependem de nós. Quando nos extinguirmos, os oceanos por cá continuarão, a biodiversidade restaurar-se-á naturalmente e os serviços dos ecossistemas imprescindíveis para a existência de Gaia voltarão ao seu esplendor. A única peça que faltará nesta belíssima manta de retalhos seremos nós…
Como não poderia deixar de ser, os Açores e a Madeira estiveram presentes na UNOC e representados ao mais alto nível. Os cientistas marinhos do Faial, com uma delegação do Instituto Okeanos da Universidade dos Açores muito bem composta, participaram nas discussões, aportando o conhecimento que deverá servir de base às soluções que os políticos regionais irão considerar quando executarem as ações que irão consubstanciar os compromissos que têm assumido. O Observatório do Mar dos Açores, uma das poucas organizações não governamentais para o ambiente dos Açores, registou e, certamente, exigirá acompanhar a implementação dessas soluções.
Entre estes compromissos, destaco a proteção de 30% dos oceanos até 2030. É uma meta que não pode ser feita apenas de papel. Haverá que escolher áreas significativas e diversificadas e promover atividades que aí garantam a saúde dos oceanos. Isso implicará, i
nevitavelmente, desafios com consequências nas atividades extrativas e mesmo contemplativas. Vai ser difícil, mas é um compromisso assumido e que terá de ser cumprido. É um dos contributos que os Açores terão de dar para o mundo. Começámos bem, com o estabelecimento dos Parques Naturais de Ilha e o Parque Marinho dos Açores, mas esses eram apenas alguns dos passos iniciais. Reconheço o empenho dos sucessivos governos dos Açores, mas temos de fazer mais e melhor. Dou a maior força!
No meu caso, estive envolvido na organização das “IV Rotas da Economia Azul da Bélgica e Portugal”. Este momento, que foi um dos eventos paralelos oficiais da UNOC, tentou mostrar como os projetos-piloto são fundamentais para o estabelecimento de soluções marítimas economicamente interessantes, socialmente aceitáveis e ambientalmente adequadas. O Parlamento e a Comissão Europeia, os governos da Bélgica e Portugal, as associações ambientalistas, os clusters empresariais para a economia azul dos dois países, cientistas, inúmeras empresas e outros interessados marcaram presença.
As ligações da aristocracia lusa com a Flandres remontam ao tempo de D. Afonso Henriques, muito antes de existir a Bélgica e quando Portugal era apenas um projeto que insistia em nascer. Foi também por isso muito agradável registar a participação da Casa Real Portuguesa neste evento.
A organização, a Câmara do Comércio Belgo-Portuguesa, tem sede na Bélgica. Estando em Portugal, contou com o apoio abnegado da Sociedade de Advogados Morais Leitão, que cedeu um dos seus auditórios em Lisboa. Para além desta empresa, a Sciaena, a Haedes, o Fórum Oceano e a Blawe Cluster completaram o leque de imprescindíveis apoios.
Penso que construímos bases de confiança legal, política, ambiental e empresarial, assentes em bom conhecimento científico, para que se venham a constituir ainda mais alianças entre os dois países. Há que aproveitar as sinergias entre Portugal e a Bélgica. Com uma pontinha de indisfarçado orgulho, penso que ajudamos a que o mar do mundo ficasse um pouquinho melhor.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Voo do Cagarro - 27: Em solidariedade com a Ucrânia

 
Kyrill Korsunenko em concerto em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

De volta a Bruxelas, tenho-me empenhado em diversos projetos pessoais, continuando a aproveitar a travessia do meu deserto laboral. A travessia está quase terminada e “penso já ver o primeiro oásis, ali ao fundo… Aquela luzinha, vês?”
Um desses projetos é apoiar os meus amigos ucranianos, mesmo que modestamente. Continuo revoltado com o massacre do povo inocente da Ucrânia. Penso muitas vezes nas crianças que deixaram de ter futuro porque um tirano de uma terra distante tem sonhos imperialistas e acesso fácil a bombas voadoras. Como poderá a jovem que perdeu uma perna por estas mesmas razões alguma vez voltar a ter uma vida normal?! Ouvi-a esta manhã na rádio e virou-me o estômago. Não está certo, não está certo!
Também continuo particularmente irritado com o comportamento dos amigos do déspota Putin… Por falar nos seus amigos, o Sergey Lavrov (ministro dos negócios estrangeiros da Federação Russa) não vos faz lembrar o Mohammed Saeed al-Sahhaf, o entusiasta ministro da Informação de Saddam Hussein que fazia declarações hilariantemente negacionistas perante a óbvia queda do regime iraquiano de então? Como vejo pouca televisão, nem sei se são parecidos fisicamente, mas ao nível do registo comunicacional são fenotipicamente os mesmos.
Foi esta perspetiva, de tentar auxiliar a Ucrânia no que está ao meu alcance, que me levou à segunda sala mais importante da cidade de Bruxelas: a Sala Gótica dos Passos da Câmara Municipal de Bruxelas (aqui dita Salle Gothique de l'Hôtel de Ville de la Commune de Bruxelles). É um contraste enorme entre a solenidade e a importância histórica da sala e o seu aspeto. Não é particularmente grande, a decoração é modesta e os materiais usados na sua construção variam entre o histórico trabalhado e o incompleto, entre o valioso e o pechisbeque, entre o aprumado e o abandonado, mas os belgas têm-lhe uma adoração que ultrapassa a sensatez. É de tal forma assim que, eu que não nutro qualquer estima pela sala, cada vez que lá entro, fico em silêncio contemplativo por respeito e tentando entender a lógica daquela contemplação coletiva.
Naquele dia, na tal Sala Gótica, iria decorrer um concerto de solidariedade para com a Ucrânia e, portanto, tendo sido gentilmente convidado, lá estava eu.
Antes do início do programa musical propriamente dito, as músicas, jovens ucranianas, tocaram os hinos da Ucrânia e da Europa e diversos políticos foram convidados a discursar. Como já adivinhava, mesmo antes de terem irrompido as primeiras notas do “A Ucrânia ainda não morreu” (o “Hino da Ucrânia”), já eu estava emocionado. Quando terminou o último acorde do quarto andamento da nona Sinfonia de Beethoven (o “Hino da Alegria” ou “Hino da Europa”) já não podia falar, tal o aperto na garganta. Sou assim…
Começaram os discursos…
O embaixador da Ucrânia em Bruxelas demonstrou “aquela enorme coragem que até se vê do espaço” (dito de forma mais vernacular nas redes sociais, mas que não posso repetir aqui). Disse tudo o que tinha a dizer e sem hesitar um instante em adjetivar com toda a precisão o que sentimos pelos ditadores russos, sobre a injustiça do sofrimento imposto ao povo ucraniano e apelou ao apoio internacional. No caso, por iniciativa das próprias músicas, fomos convidados a colaborar na aquisição de uma ambulância a ser utilizada no leste da Ucrânia. Contribui generosamente, se tivermos em atenção a minha atual situação laboral…
Tomaram também a palavra os presidentes das câmaras de Bruxelas e de Kiev (este último por via remota). Referiram o seu recente encontro em Kiev e como partilharam a dor e o sofrimento dos ucranianos, não hesitando o belga um milímetro em estar ao lado do colega.
No entanto, o discurso da noite foi proferido pela representante da Comissão Europeia. Tendo sido ela própria uma refugiada de guerra quando criança, tentou explicar o inexplicável para quem se vê, de um momento para o outro, longe de tudo o que conhecia. Partiu com absolutamente nada de Chipre, apenas tendo como consolo as palavras de sua mãe, dizendo-lhe que jamais lhe tirariam “a cultura e a educação” e isso era “tudo o que é necessário para começar de novo”. Por compreender esta importância, a Comissão Europeia abriu a possibilidade dos ucranianos concorrerem a programas de financiamento cultural como qualquer outro cidadão de um Estado-membro. Sobre a atitude do Governo da Federação referiu que, “por mais que destruam património cultural da Ucrânia”, e, segundo a UNESCO, já destruíram centenas de obras classificadas, “iremos reconstruir. Este património pode ser destruído, mas não será apagado! A União Europeia não permitirá!”
Começou a música…
Foram tocadas obras de compositoras e compositores ucranianos. Não sendo eu um apreciador fervoroso de toda música erudita eslava, estava preparado para não me deleitar particularmente…
Até que… apareceu na sala um jovem pianista de nome Kyrill Korsunenko. Fixem este nome. Ainda não é, mas não tenho qualquer dúvida que se poderá tornar num pianista de primeiro nível. “Eu ouvi-o” e, parece-me, daqui a uns anos, vou dizer isto orgulhosamente com um brilho nos olhos e de coração cheio!

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Voo do Cagarro - 26: Desafio de Mobilidade Elétrica “Ucrânia”


Parque solar na ilha do Corvo, Açores.
Foto: F Cardigos

No momento em que redijo estas linhas estou entre empregos. Felizmente, as coisas estão bem encaminhadas e é natural que tudo esteja resolvido em breve. A posição para que estou a concorrer fica a 220 quilómetros do sítio onde habito e isso irá exigir mobilidade acrescida. Ou seja, a minha bicicleta, apesar de espetacular, não será suficiente.
Comecei a estudar as diferentes possibilidades e, sendo ambientalista, concluí que o comboio será uma belíssima solução. No entanto, gostaria de ter uma alternativa de emergência, que pudesse usar a qualquer momento do dia ou da noite. Isso significa que terei de adquirir uma viatura e, claro, terei de optar por um carro elétrico. Agora, o problema é que o carro que eu quero não existe. Preciso de um automóvel com cerca de 500 quilómetros de autonomia real (por redundância e por causa do ar condicionado no Inverno), com baixo consumo, seguro, minimamente confortável e barato. Não há.
Portanto, lanço o desafio a todas as marcas de automóveis para criarem rapidamente um veículo com estas características: elétrico, autonomia superior 500 km WLTP, consumo inferior a 20 kWh, cinco estrelas Euro NCAP, mínimo de 4,3 m de comprimento, novo e tudo isto por menos de 25 mil euros. O prémio será… venderem o carro!
A este concurso dou o nome de “Desafio de Mobilidade Elétrica Ucrânia”. Porquê “Ucrânia”?! Porque este país está a ser barbaramente invadido pelo Governo e Forças Armadas da Federação Russa e merece ser sempre relembrado. Além disso, para nos livrarmos dos combustíveis fósseis, como os que alimentam a máquina de guerra russa, temos de optar por soluções elétricas ou equivalentes.
Há motivos para animação no mundo da transição verde. Depois da Comissão Europeia ter dado o mote com o Pacto Ecológico Europeu, os diferentes níveis de planeamento e decisão têm aderido. Para além das instituições europeias, em Portugal, também o Governo da República, os governos regionais e as autarquias têm-se mobilizado para responder ao enorme desafio. Mesmo no mais pequeno Concelho do país...
Por organização do projeto LIFE CLIMAZ (financiado pela Comissão Europeia e implementado pelo Governo dos Açores e parceiros), tive oportunidade de visitar o Parque Solar da EDA Renováveis na Ilha do Corvo. Neste preciso momento, o projeto já está funcional, embora ainda em fase experimental. Apesar disso, já debita para a rede 15 kW durante o dia e tem um potencial de crescimento até aos 75 a curto prazo e 150 kW com a instalação dos equipamentos já planeados.
Tendo em consideração que o consumo do Corvo é de cerca de 120 kW durante o chamado período de “vazio” e 290 kW no período de “máximo”, a produção solar já tem expressão e um potencial para ser muito significativa no futuro. Acresce que está também planeada a instalação de um conjunto de baterias que permitirão economizar no período de vazio e debitar no período de carência, mas, igualmente importante, amenizar os períodos com excesso de consumo pontual e estabilizar a frequência.
Saí do Corvo voando para o Faial.
Um dos engenheiros da EDA, corrigindo dados mais otimistas que eu tinha do passado, disse-me que “Um parque eólico demora 10 a 11 anos a pagar-se, incluindo investimento e manutenção. Estes não são dados de estimativa ou planeamento, são observações que resultam da nossa experiência.” Isso levou-me a querer voltar ao Parque Eólico do Faial, em Pedro Miguel.
Zaaag-zaag-zaaag… Fiquei ali a ouvir o lento, mas firme movimento daqueles moinhos modernos e monstruosos com vista privilegiada para o Pico. Zaaag-zaag-zaaag… Dada a idade deste parque eólico, cada voltinha daquelas enormes turbinas é lucro! Energia limpa e lucrativa… Zaaag-zaag-zaaag…
Lembrei-me das sábias palavras que o Sr. Mário Fraião outrora me disse neste mesmo local, “é como olhar para o futuro”… O mundo do futuro precisa de pessoas de mudança como o foi o fundador do jornal Tribuna das Ilhas. Custa? Claro que custa e não é pouco! Há que alterar comportamentos e isso inclui recusar as energias fósseis, reduzir os consumos, colaborar na reciclagem, dinamizar o mercado de proximidade e pagar pela pegada ecológica do dano que não conseguimos evitar. Ou seja, há que optar por soluções sustentáveis!
Zaaag-zaag-zaaag…


Eólica na ilha do Faial, Açores.
Foto: F Cardigos